Arquivo de Março, 2009

Completamente invisível

Frustrada, zangada, irritada, azeda.

É assim que me sinto hoje. Estou tão farta desta situação que só me apetece gritar, berrar, puxar cabelos, explodir. Sinto que não existo, que ninguém me vê, que sou completamente invisível.

Não me interpretem mal, não quero ser uma daquelas pessoas que quando entra numa sala põe toda a gente a olhar. Mesmo que quisesse nunca na vida o conseguiria mas não quero. Não sei ligar bem com olhares múltiplos especados em mim. Ia sentir-me como um animal de circo ou como se tivesse qualquer coisa absolutamente nojenta colada na testa. Ia sentir-me muito mal.

Não. O que eu queria era sentir aquela sensação de estar em qualquer lado, passar os olhos pela sala e encontrar alguém com os olhos postos em mim. Discretamente, ainda que muito ligeiramente, ainda que fosse só de passagem. Mas alguém que me olhasse. Alguém que me fizesse sentir que eu estava ali, estava viva e não era apenas parte da decoração.

Sim, sou tímida, sim não sou bonita, sim sou gorda, mas merda, um olhar de vez em quando não é pedir muito, ou é?

Sinto-me vazia, oca. Como se no lugar do meu coração estivesse apenas uma máquina ferrugenta. Afinal eu não o uso há tanto tempo. E quando o uso é sempre pelas piores razões e aí sinto-o encolher como se fosse desaparecer.

Houve uma altura em que me senti olhada por alguém e a verdade é que eu odiava o rapaz. Eu devia ter uns 12, 13 anos e um idiota lá da escolha costumava andar atrás de mim (entenda-se como literalmente atrás de mim, a esbarrar comigo e a tentar meter conversa, nada com o atrás de mim associado a uma sensação mais romântica).

Eu não gostava dele, não ia nada com a cara dele e na altura desprezava-o um pouco. E a verdade é que acho que ele não gostava de mim, nem por sombras. Acho é que como não conseguia ter nada com mais ninguém, como ele era chato como tudo e ninguém lhe ligava, se voltava para a palhaça mais a jeito. Podia até ser que dali caísse alguma coisa.

Mas eu era nova demais e andava iludida com o príncipe encantado, o ídolo da turma e era dele que gostava, não tinha olhos para mais ninguém.

Estúpida.

Como se ele fosse alguma vez olhar para mim como mais do que uma colega (nem sequer amiga). E por isso não ligava nada ao outro pobre coitado até que ele pouco tempo depois acabou por se cansar (para vocês verem a enormidade de amor que ele tinha por mim).

E agora, mais de 10 anos depois (é verdade, os 24 já lá vão há alguns meses) aqui continuo sozinha, sem nunca sequer ter sentido os lábios de outra pessoa nos meus ou um simples olhar de interesse.

É castigo mas é bem feito…

Muito bem feito para mim.